Por Helena Benfica
Valor Econômico
28 de janeiro de 2026
A Privalia, maior outlet virtual de moda do país, anunciou nesta quarta-feira (28) a venda do controle da operação brasileira para o fundo Order VC, segundo informações obtidas com exclusividade pelo Valor. O valor da transação não foi divulgado.
No Brasil há 17 anos, a plataforma era controlada desde 2016 pelo grupo francês Veepee, que há tempos buscava formas de deixar de atuar em mercados emergentes para focar na Europa, onde opera em países como Espanha, França e Itália. O negócio já foi submetido ao Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade) e aguarda aprovação.
A operação local continuará sendo comandada por Fernando Boscolo, atual CEO da Privalia no país. Em entrevista ao Valor, o executivo disse que, embora o Veepee tenha tomado a decisão de priorizar as operações europeias há algum tempo, não havia pressa em vender o negócio no Brasil, pois ele não era um “problema” para o controlador.

“Eles avaliavam oportunidades, mas com muita cautela. Tinha que ser um negócio interessante para a Veepee e que desse continuidade ao que vinha sendo feito no Brasil”, disse Boscolo. Segundo o executivo, a companhia apresentou uma taxa de crescimento anual composta de 11% nos últimos cinco anos.
Em 2025, o faturamento totalizou R$ 1,3 bilhão, alta de 7,5% em relação a 2024, com lucro antes de juros, impostos, amortização e depreciação (Ebitda) de aproximadamente R$ 50 milhões. A expectativa, segundo Boscolo, é bater R$ 1,5 bilhão de faturamento em 2026.
Em meados de 2021, a Privalia chegou a anunciar que faria uma oferta inicial de ações (IPO), mas suspendeu a operação em razão da volatilidade das condições de mercado. Meses depois, a companhia colocou o negócio à venda pelo valor de R$ 1 bilhão, mesmo patamar do valor da oferta de ações que foi suspensa, mas nenhuma conversa avançou.
Para o Order VC, que tem como foco acelerar marcas de consumo e varejo, a Privalia representa a aquisição mais relevante nos seus sete anos de existência. Além do potencial de crescimento do comércio eletrônico — que hoje representa cerca de 13% do total das vendas no país, ante 20% em mercados mais maduros — a tese também considera o nicho de mercado que a plataforma explora.
“Através de marketing e ofertas emocionais, a Privalia consegue fazer vendas por impulso, tendo um tipo de cliente diferente dos e-commerces tradicionais”, afirma Gilberto Zancopé, fundador do Order. O fundo entra como sócio operador e não pretende indicar nomes para ocupar cargos de liderança. “O time está maduro e pronto”, acrescenta Zancopé.
Nos últimos anos, o varejo de moda brasileiro passou por transformações importantes. Além do amadurecimento da indústria nacional, que investiu pesado para melhorar suas operações físicas e digitais, houve também o avanço dos marketplaces asiáticos, como Shopee e Shein, que disruptaram o mercado com estoques ágeis e preços altamente competitivos.
Para Boscolo, esse cenário não representou uma ameaça direta ao negócio. Pelo contrário, contribuiu para o fortalecimento do mercado on-line no país. “Antes da pandemia, tinha muita gente que falava: ‘Eu não compro pela internet’. Hoje em dia isso é raro e vai ser cada vez mais”, afirma.
Na avaliação do executivo, a experiência de “caça ao tesouro” que a Privalia oferece é sua principal fortaleza diante do aumento da concorrência. No modelo de “flash sale”, as promoções ficam no ar por cerca de sete dias, estimulando uma navegação mais exploratória.
“Raramente uma pessoa entra na plataforma porque precisa comprar uma camiseta branca. Ela entra porque quer saber o que tem de oportunidades e novidades sobre marcas reconhecidas”, diz Boscolo.
O outlet recebe cerca de 500 mil visitas diárias, e o tempo médio de navegação chega a 13 minutos, patamar próximo ao de redes sociais e muito acima da média de dois minutos do comércio eletrônico tradicional. Em uma pesquisa interna feita com 1.500 usuários, 87% informaram que fizeram compras não planejadas e 94% disseram comprar imediatamente para não perder uma oportunidade.
Além das lojas oficiais de cada marca, a Privalia também cria coleções e peças exclusivas em parceria com as marcas para a plataforma, de modo a atender demandas específicas dos usuários ao mesmo tempo em que ocupa capacidade ociosa da indústria. Batizada de “Made for Privalia”, essa vertical representa hoje cerca de 25% do negócio, podendo variar de acordo com a demanda.
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