
Conhece aquela imagem do empresário que enfrenta tudo sozinho? Aquele que não pede permissão para inovar, que desafia o consenso e transforma visão em realidade? Essa figura saiu direto das páginas de Ayn Rand.
O Ocidente construiu a cultura do empreendedorismo baseada nesse arquétipo específico do homem randiano de A Revolta de Atlas. É o homem Atlas que carrega o mundo nas costas. Nos romances de Rand, ele aparece como Rearden, Dagny, Taggart, Francisco d’Anconia e John Galt. Eles formaram o conceito do empresário combativo no mundo ocidental.
Esse arquétipo inspirou a geração do Vale do Silício. Peter Thiel, Steve Jobs, Elon Musk. Heróis românticos que celebram a realização do indivíduo contra a burocracia, contra o consenso, contra o peso das estruturas que tentam impedir o nascimento do novo.
É o homem que toma a vida nas próprias mãos. Aquele que é autor e protagonista da própria vida. Aquele que vence por mérito baseado na inteligência e no esforço próprio. O homem verdadeiro que busca sua realização com base no egoísmo racional.
Cada indivíduo é um fim em si mesmo. O homem randiano não sacrifica a si nem aos outros e também não exige que os outros se sacrifiquem por ele.
Nesse ponto, ele se aproxima de Adam Smith: “não é da benevolência do açougueiro, do cervejeiro ou do padeiro que esperamos nosso jantar, mas da consideração que eles têm pelos seus próprios interesses”. A vida econômica não se sustenta apenas na benevolência. Ela se move pelo interesse próprio, pela troca, pelo trabalho, pela responsabilidade e pela capacidade humana de produzir valor.
Do lado oposto desta visão está a cultura woke. Seu antagonismo direto. Sua inimiga visceral. Não o protagonista empreendedor, mas o woke vitimista.
Nessa lógica woke, o que determinaria a parcela de cada um na sociedade não seria o mérito ou o esforço próprio, mas a condição de origem, a raça, a etnia, a sexualidade, a estatura, etc; desde que sirvam de base para uma reivindicação de compensação histórica.
É quando a pergunta muda de ‘quem entrega mais?’ para ‘quem representa uma causa?’. É quando competência perde espaço para identidade. Quando desempenho vale menos que a narrativa moral que o acompanha.
O wokeismo é inimigo porque construir uma empresa baseada nessa cultura é o inverso absoluto da busca de resultados por mérito, de entrega, das metas batidas, do lucro suado.
Nessa lógica dos woke, tudo deve ser entregue por recompensa sem esforço. A empresa deixa de ser organização produtiva e se transforma em repartição ideológica.
Uma empresa que abandona sua régua da entrega não sobrevive, pois não há inovação sem responsabilidade e não há crescimento sustentável quando a recompensa se separa de desempenho. Os melhores dentro da empresa deixam de confiar, os medianos aprendem a negociar posição pela linguagem moral e os fracos deixam de ser preparados para competir.
Ao final, a empresa perde força, foco, velocidade e mercado. E quando a empresa adoece, não há empregos para os fortes nem para os fracos.
É claro, a sociedade deve amparar e dar suporte aos fracos. Mas como política pública. O empreendedor deve ter empatia pelos desamparados, mas ajudá-los com filantropia, não destruindo uma cultura vencedora na empresa.
O administrador não pode impor um novo imposto ou nova taxa para os acionistas na forma de cotas recompensadoras para quem quer que seja. Ele não foi eleito para isso. Seria usurpar o papel dos políticos.
Uma empresa pode ampliar oportunidades sem abandonar a exigência. Pode formar pessoas sem premiar incompetência. Pode acolher histórias difíceis sem transformar sofrimento em atalho hierárquico. Pode ter compaixão sem renunciar à excelência.
Mas há uma diferença essencial entre abrir acesso e destruir critério.
Ao adotar uma política woke nesse sentido, o administrador não promove justiça. Ele destrói a meritocracia, enfraquece a competitividade e introduz ressentimento no coração da empresa. Isso conduz à falência inevitável.
Como cristão praticante, eu reconheço os limites do homem randiano.
Ayn Rand passou a vida pregando o ateísmo. Ela ‘endeusou’ o homem, colocando-o no altar. Deu-lhe toda suficiência para a autorrealização neste mundo, naquilo que é imanente.
Para o cristão, o homem é um pecador, carente, insuficiente, incapaz de se realizar plenamente nesta vida. Ele é ferido, incompleto, precisa de graça. Sua completude não está neste mundo.
O homem randiano é interessante, mas reduzido. Ele não contempla todo o drama da humanidade.
P.S.: A verdadeira cultura empreendedora não pode se render nem ao cinismo cruel de quem engana toda a responsabilidade, nem à compaixão desorganizada do wokeismo. Ele precisa preservar uma verdade fundamental. Riqueza não nasce de ressentimento. Inovação não nasce de culpa. Empresa não se sustenta por reparação simbólica. Resultado nasce de trabalho, visão, disciplina, coragem, inteligência, risco e execução.
Um empreendedor deve ser forte sem ser soberbo. Deve buscar o lucro, sem perder a alma. Deve exigir desempenho, sem desprezar os fracos. Deve abrir oportunidades sem destruir à régua. Um empreendedor deve servir a sociedade sem entregar sua empresa ao tribunal ideológico do ressentimento.
Porque no final, todo Atlas, por mais forte que pareça, continua sendo homem. E quando esquece sua insuficiência, termina esmagado pelo peso da própria idolatria.


