
O homem não pode se refazer sem sofrer, pois é tanto o escultor quanto o mármore. (Alexis Carrel)
Eu adoro a escultura Self-Made Man (O homem feito por si mesmo), criada pela artista americana Bobbie Carlyle, e a frase de Alex Carrel que a acompanha. Para mim, essa obra é a imagem perfeita para sustentar a Teoria da Ordem, com a qual venho me dedicando há muitos anos.
O papel do administrador, na teoria atual do capitalismo, é atender, da melhor forma possível, todas as partes interessadas da empresa, aquilo que se convencionou chamar de stakeholder capitalism.
O administrador é colocado como sujeito da ação, enquanto todas as partes interessadas passam a ser vistas como objeto dessa ação.
A minha proposição para a teoria do Capitalismo em Ordem, livro em execução, é manter o administrador como sujeito da ação, mas também como objeto dela. Daí o meu fascínio pela escultura mencionada. O homem molda a si mesmo, ao mesmo tempo, como sujeito e como objeto de sua própria vontade.
A primeira tarefa do administrador é conhecer a si mesmo, fortalecer-se, amar-se e realizar-se. O homem só pode oferecer aquilo que possui. O fraco não pode dar força, porque é carente dela.
Cristo ensinou a “amar o próximo como a si mesmo”. A medida do amor ao outro nasce, portanto, da medida do amor que se tem por si. A primeira lição é amar-se, para só então amar o outro na mesma proporção, nem mais, nem menos.
A teoria do Capitalismo em Ordem pressupõe quatro níveis de ordem. O primeiro é a ordem interna, na qual o administrador deve realizar o esforço de ordenar a si mesmo, como o homem representado na escultura. Somente um administrador em ordem é capaz de ordenar a empresa.
O segundo nível é a ordem organizacional, na qual o administrador alinha os departamentos e integra as partes internas da empresa. Um piano desafinado produz ruído; um piano afinado produz sinfonia. O papel do administrador é afinar esse piano. Ao fazer isso, ele inclui os funcionários na equação.
O terceiro nível é a ordem com os mercados. Nele, o administrador deve lançar produtos alinhados à vontade dos consumidores, com o preço certo, no canal certo e com uma proposta de valor capaz de atender, ao mesmo tempo, consumidores e acionistas. Assim, ambos são incluídos como consequência natural da ação ordenadora.
O quarto nível é a ordem com a sociedade e o planeta. De nada adianta uma proposta de negócio que não seja sustentável. Vender cocaína, por exemplo, pode gerar dinheiro, mas cedo ou tarde o concorrente, a violência ou a polícia interromperão a atividade, revelando a fragilidade de um negócio sem ordem. Da mesma forma, consumidores tendem a abandonar produtos e serviços que degradam o ambiente, pois aquilo que destrói a base da vida também destrói, no tempo, a legitimidade do próprio negócio.
Assim, ao operar em ordem, o administrador deixa de tratar as partes interessadas como objeto direto de sua ação e passa a integrá-las como consequência natural dela. Em última instância, elas não são o alvo imediato, mas o resultado inevitável de uma organização em ordem, nascida de um homem que primeiro ordenou a si mesmo.
As partes interessadas, stakeholders, acionistas, funcionários, fornecedores, consumidores, comunidade e meio ambiente são beneficiados pela ação do administrador não como objeto, mas como consequência, um efeito colateral, da busca do administrador pela sua própria ordem interna. Sujeito e objeto da ação.


